Egnaldo


Na janela

Não tinha maldade em si, apenas não conseguia entender. Os diálogos estavam ficando cada vez mais monótonos. Aquela sequência lógica de respostas industrializadas a irritava.
- Por quê??
- Não te interessa!
- Mas eu sou...
- Foda-se.
O tempo passava, e a cada dia sentia em si um rancor profundo, talvez pelos intermináveis anos de dedicação, quase sem resposta.
Pegou sua bolsa. Não botava os pés para fora de casa sem ela. Saiu. Não sabia para onde ir, sem rumo, sem sonhos.
Chovia. O ponto onde costumeiramente tomava o ônibus para trabalhar estava vazio, porém, cercado de água por todos os lados. Era o mais sutil retrato de sua vida. Vazia e isolada de todos. Não admitia que sua solidão era intencional. Ninguém a compreendia.
Deu sinal. Algumas poucas pessoas, vidros embaçados. Tentou imaginar se algum dos que ali estavam sofria como ela? Não sabia. Da janela, viu alguns poucos pedestres se aventurando em meio àquele caos. Pensou em descer. Em voltar. Deixar tudo tão fácil não era de sua índole. Correu até a porta. Sem pedir licença, quase tropeçou ao descer a escada. Não via nada. Não sentia nada. Não pensava nada. Apenas tinha de voltar. Ao tentar atravessar a rua, suas frágeis pernas a abandonaram.
Estava só. Desentendimentos fortuitos, dias vazios, tudo ficou para trás. Em seu último suspiro, resquícios de uma felicidade nunca vivida. Doces lembranças dos planos jamais concretizados.



Escrito por Egnaldo às 13h03
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Momento no café

- Ein kaffee, bitte. Assim começou sua manhã. Um café. Mais forte que si mesma. Mais doce que seu dia. Um café. Pela janela, observava atenta aqueles que andavam sem olhar para a frente. Dessa forma se encontrava. Não olhava para o que vinha adiante. Não tinha coragem.
- Um café, por favor. Precisava apagar as mágoas. Não tinha ressentimentos. Apenas vazio. Uma tragada e esqueçia. Quase a última. Não lembrava. Não sorria, como da última vez. Não amava como da última vez. Perdeu seu senso de autopiedade. Tentou mudar. Ainda havia resquícios de esperança naquele corpo frágil. Mal conseguia se sustentar. As pernas, já estafadas, davam sinais de cansaço. Voltar, jamais. Não queria. Melhor, não podia. Tinha plena consciência do que havia feito. O remorso ruía suas entranhas. Já tarde, a dor lhe trouxera esparsas reflexões sobre si mesma.
- Esperta. Apenas me usa. Reclusa. Meus dias não a tornam mais próxima, mas sim soberba. Não fumarei mais. Não. Apenas pensarei. Não sei por quê. Pensarei. Nos dias. Nas noites. Sei. Não vale mais a pena. Me entrego, com os escárnios infortúnios fortuitos. Fracassada. Ela, não eu. Não reconheço a mim mesma.
Ein Kaffee. Só assim apagaria o rancor. Amargo, por favor.



Escrito por Egnaldo às 13h01
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Os dias

Um dia ela acordou. Não sabia que seria assim. Após anos de sofrível lamento, deu-se conta de sua mediocridade. As paredes estavam sujas. A velha escada já não tinha o brilho de sua finada juventude. Olhou, não com desdém, mas o rancor dos acontecimentos a levou para tempos passados. Acordou. À sua volta, não mais estavam todos aqueles a quem amara um dia. Teve um súbito pavor logo que tomou ciência de sua solidão. As velhas lembranças já não mais a confortavam. Suas antigas fotografias, já amareladas pelo tempo, escarneciam as poucas esperanças que lhe restavam. Absorta, percebeu naquela fatídica manhã algo estranho. Não à sua volta, mas sim nela mesma. Não se reconheceu no espelho. Os olhos. O cabelo. Não era ela. Talvez a mera projeção de seus devaneios. Não tinha cabeça para pensar nisso. Voltou para a cama. Era um lugar seguro. Podia sonhar sem medo. Caso não a agradasse, bastava acordar.



Escrito por Egnaldo às 12h54
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