Na janela
Não tinha maldade em si, apenas não conseguia entender. Os diálogos estavam ficando cada vez mais monótonos. Aquela sequência lógica de respostas industrializadas a irritava.
- Por quê??
- Não te interessa!
- Mas eu sou...
- Foda-se.
O tempo passava, e a cada dia sentia em si um rancor profundo, talvez pelos intermináveis anos de dedicação, quase sem resposta.
Pegou sua bolsa. Não botava os pés para fora de casa sem ela. Saiu. Não sabia para onde ir, sem rumo, sem sonhos.
Chovia. O ponto onde costumeiramente tomava o ônibus para trabalhar estava vazio, porém, cercado de água por todos os lados. Era o mais sutil retrato de sua vida. Vazia e isolada de todos. Não admitia que sua solidão era intencional. Ninguém a compreendia.
Deu sinal. Algumas poucas pessoas, vidros embaçados. Tentou imaginar se algum dos que ali estavam sofria como ela? Não sabia. Da janela, viu alguns poucos pedestres se aventurando em meio àquele caos. Pensou em descer. Em voltar. Deixar tudo tão fácil não era de sua índole. Correu até a porta. Sem pedir licença, quase tropeçou ao descer a escada. Não via nada. Não sentia nada. Não pensava nada. Apenas tinha de voltar. Ao tentar atravessar a rua, suas frágeis pernas a abandonaram.
Estava só. Desentendimentos fortuitos, dias vazios, tudo ficou para trás. Em seu último suspiro, resquícios de uma felicidade nunca vivida. Doces lembranças dos planos jamais concretizados.
Escrito por Egnaldo às 13h03
Um dia ela acordou. Não sabia que seria assim. Após anos de sofrível lamento, deu-se conta de sua mediocridade. As paredes estavam sujas. A velha escada já não tinha o brilho de sua finada juventude. Olhou, não com desdém, mas o rancor dos acontecimentos a levou para tempos passados. Acordou. À sua volta, não mais estavam todos aqueles a quem amara um dia. Teve um súbito pavor logo que tomou ciência de sua solidão. As velhas lembranças já não mais a confortavam. Suas antigas fotografias, já amareladas pelo tempo, escarneciam as poucas esperanças que lhe restavam. Absorta, percebeu naquela fatídica manhã algo estranho. Não à sua volta, mas sim nela mesma. Não se reconheceu no espelho. Os olhos. O cabelo. Não era ela. Talvez a mera projeção de seus devaneios. Não tinha cabeça para pensar nisso. Voltou para a cama. Era um lugar seguro. Podia sonhar sem medo. Caso não a agradasse, bastava acordar.
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